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Tropa do VorcaroAcervo do caso Banco Master

Dossiês

Como o dinheiro das aposentadorias chegou ao Master?

Pelo menos 21 institutos de previdência de servidores compraram letras financeiras do Master, sem garantia do FGC, e cerca de 100 tinham cotas de fundos ligados ao grupo. Quem decidiu, por qual caminho, que alertas existiam e o que ainda não se sabe.

Documentado Atualizado em 2026-10-17T00:00:00.000Z

Resumo

O Ministério da Previdência informou em 19/11/2025 que 18 regimes próprios de previdência — 3 estaduais e 15 municipais, entre os 2.130 do país — aplicaram R$ 1,867 bilhão em letras financeiras do Banco Master [1]. Uma tabela posterior, com base em resposta do próprio ministério a requerimento da Câmara, lista 21 entes [2]. Além da compra direta, a Folha identificou pelo menos 100 regimes com cotas de cinco fundos ligados ao grupo [3].

Letras financeiras não têm cobertura do Fundo Garantidor de Créditos: o regulamento do FGC não as lista entre os créditos garantidos e exclui expressamente créditos de regimes próprios e de fundos [4]. O próprio Ministério da Previdência registrou isso num parecer de julho de 2024 [5]. Se o dinheiro faltar, quem cobre a aposentadoria é o estado ou município [6].

Os números, conciliados

O que éValorFonte
Aplicado em letras financeiras por 18 entes (lista de nov/2025)R$ 1,867 biMinistério da Previdência
Aplicado em letras por 21 entes (tabela RIC 8052/25)soma das linhas na evidênciaAgência Câmara
Aplicado direto, somando as fichas deste acervover painelacervo
Aplicado em fundos ligados ao gruponão somado ao diretoFolha / PF

As reportagens citam R$ 1,86 bi, R$ 1,867 bi e R$ 1,876 bi para o mesmo conjunto [7]. A soma das aplicações individualizadas nas fichas deste acervo (ver painel) ainda não foi conciliada linha a linha com a lista oficial: depois das correções de 17/10/2026 (total duplicado de Itaguaí e papel do Daycoval retirados, ver revisões), ela fica abaixo dos R$ 1,867 bi do Ministério, e a diferença está registrada como pendência. Nenhum desses números é prejuízo: é o valor aplicado na época.

O dinheiro aplicado em fundos não é somado ao direto. No Rioprevidência, por exemplo, o fundo Arena teve o instituto como único cotista [8], e o instituto declara ter resgatado cerca de R$ 1,4 bilhão de fundo do Master em dezembro de 2025 [9]: o mesmo dinheiro pode ter passado por mais de um fundo.

Os três estados

Rio de Janeiro. O Rioprevidência fez nove compras de letras financeiras de dez anos entre novembro de 2023 e julho de 2024, somando R$ 970 milhões [10]; o diretor de investimentos confirmou o total em ata do comitê de 30/10/2024 [11]. As quatro atas de 2024 lidas não registram votação sobre as letras: elas aparecem só como informe [12]. A fiscalização do Ministério da Previdência, transcrita pela PF, concluiu que o credenciamento do Master foi reduzido a um ato burocrático [13].

Papéis documentados: o governador Cláudio Castro nomeou o diretor-presidente Deivis Marcon Antunes em 05/07/2023 [14]; a nomeação do diretor de investimentos Euchério Lerner Rodrigues é atribuída a Castro pelo TCE e pela PF, e ele contesta [15]. O governador aparece aqui como quem nomeou, não como quem aplicou: nenhum documento lido mostra ato dele em uma compra.

Amapá. A Amprev aparece na lista oficial com R$ 400 milhões em letras financeiras em 2024, cerca de 4,7% do patrimônio [16]. A auditoria do ministério registra três reuniões do comitê em julho de 2024 [17]; segundo o ex-presidente Jocildo Lemos, a aprovação foi unânime [18] — é a versão dele, sem ata examinada.

Amazonas. A Amazonprev comprou R$ 50 milhões em 06/06/2024 [19]. Segundo decisão judicial reportada, analistas internos e a consultoria do instituto desaconselharam a aplicação [20]. É a única entidade com perda registrada em demonstração contábil localizada: provisão integral de R$ 59,8 milhões (valor atualizado) [21].

Os municípios

Maceió aplicou R$ 97 milhões em duas operações [22]; o Master não constava da lista de instituições habilitadas do ministério na data do primeiro aporte, segundo a PF [23]. Cajamar aplicou R$ 87 milhões em três letras, segundo o Ministério Público de Contas de São Paulo com base nos documentos publicados pelo instituto [24]; a PF fala em R$ 107 milhões porque soma letras de outro banco [25]. São Roque fez sete compras em 2024 [26].

Quem alertou, e quando

  • Julho de 2024: o Departamento dos RPPS registrou ter recebido alertas do mercado sobre os critérios usados pelos regimes [27].
  • Setembro de 2024: um deputado estadual do RJ alertou publicamente para o risco ao Rioprevidência [28].
  • Abril de 2025: o Ministério Público de Contas de São Paulo pediu ao TCE-SP o acompanhamento das aplicações de municípios paulistas [29].

O que veio depois

A PF deflagrou operações específicas sobre institutos: Sine Consensu, no Amazonas [30]; Off-Balance, em Cajamar [31]; e buscas no caso de Maceió, autorizadas pelo STF [32]. Nenhuma denúncia criminal sobre esses casos foi localizada até a última verificação.

Contraditório

O instituto de Cajamar atribuiu o problema a falhas do aparato de regulação federal [33]. O Iprev de Maceió afirma ter seguido os procedimentos legais [34]. A diretoria do Rioprevidência disse em ata que o investimento era bom e passou por due diligence [35].

O que ainda não se sabe

  • Conciliação linha a linha entre a lista do Ministério da Previdência (18 entes, R$ 1,867 bi) e as aplicações individualizadas do acervo.
  • Perda reconhecida oficialmente: só a Amazonprev registrou provisão integral nas demonstrações de 2025; nos demais institutos, nenhum número oficial foi localizado.
  • Lista nominal dos cerca de 98 municípios com cotas dos cinco fundos identificados pela Folha: não obtida.
  • Votos individuais nos comitês: as atas lidas do Rioprevidência não registram votação sobre as letras; no Amapá a única fonte é o ex-presidente.
  • Quanto os distribuidores e consultorias receberam por cada venda.
  • RPPS municipais de 19 UFs ainda não foram pesquisados um a um; o CADPREV/DAIR não foi consultado diretamente.